
Feita de Papel- Carolina Maria de Jesus
Quais são as mudanças que o país obteve após 64 anos do aclamado Quarto de Despejo: Diário de uma favelada? Será que podemos nos voltar para a Carolina Maria de Jesus de 1960 e lhe dizer que seus lamentos hoje não fazem parte do cotidiano de tantas mulheres negras brasileiras? As palavras profundas de Carolina Maria de Jesus ainda ressoam como chicote nos dias de hoje. No espetáculo Feita de Papel, a companhia Mais um Ponto, Mais um Conto revisita o diário que ainda representa o Brasil profundo. O Brasil castigado pelo racismo estrutural e opressor da mulher negra brasileira. Na história, Carolina Maria de Jesus e Eliane Correia, atriz do espetáculo, mergulham no paralelo que permeia a existência das duas. Desafios, desejos, lamentos, triunfos, são colocados em paralelo para serem confrontados na realidade do palco. “Não é um desafio simples. Vou reviver Carolina e eu mesma no palco. Um fio do tempo de uma das mulheres mais extraordinárias deste país, e eu, atriz, negra, que venho seguindo os avanços intangíveis da minha própria existência, assim como Carolina. É uma fusão e um reflexo. Ela e eu. O Brasil de Carolina e o meu Brasil através da poesia que fala da nossa existência diária. Um desafio que eu amei vivenciar. Feita de papel é uma experiência que vai tocar a alma dos espectadores”, afirma Eliane. O desafio é realmente grande, afinal Carolina narra em seu Diário - traduzido para dezesseis idiomas e distribuído para mais de quarenta países - o cotidiano trágico dos moradores da Favela do Canindé. Seu texto é um marco na escrita brasileira por revelar, em primeira pessoa, como conseguiu ser resiliente através da escrita e da educação, como descreve em um de seus pensamentos: “Quem não tem amigo, mas têm um livro, tem uma estrada.”